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Que país é este?


POR EULER DE FREITAS Tá bom, eu sei. Foi apelativo usar título tão batido e mal utilizado ao longo de mais de 3 décadas para inúmeras finalidades. Mas, tenho certeza, por esta lauda, Renato Manfredini não se revirará no túmulo. Quando pensei na pergunta, ponderava se este recanto cheio de pecados ao sul do equador deveria ser chamado de Macondo, Oran ou, dando créditos a um comunista local, Sucupira ou Saramandaia. Motivos para encontrarmos traços destes exemplos de realismo fantástico em nosso cotidiano não faltam. Seja pela atuação dos nossos governantes ou pelo caminhar de seus súditos. Um dos meus preferidos envolve tanto o andar de cima quanto o porão. E, pra resumir, chamarei doravante de fábrica de mentiras. Sem qualquer dos desvios semânticos (fake news, suposto e afins) vistos por aqui e alhures. A quantidade de informações falsas distribuídas com os mais diversos interesses - sejam eles financeiros, teológicos, de poder ou, em nosso caso, da mistura dos três - é tão grande que fica difícil eleger uma delas pra exemplificar. Sorte nossa que esse não é o tema da coluna e, portanto, não farei com que vocês chafurdem nesse chorume como habitualmente o faço. Mas quero voltar aqui ao realismo fantástico. Por mais estranho que lhes possa parecer, ao meu paladar, estaríamos muito mais bem servidos se estivéssemos brigando pra saber se deixaríamos de nos chamar Bole Bole. Ou, ainda, se estivéssemos sob o jugo do vento que, tímido de início, não chamou a atenção de Aureliano. Infelizmente a realidade consegue atropelar qualquer coisa de esdrúxulo que a ficção tente trazer, rindo bem na sua cara. Se tivéssemos que responder à pergunta do título, infelizmente teríamos que recorrer a exemplos bem menos inspiradores. O que temos visto nas ruas, seja através do noticiário ou, para aqueles que não conseguem por causa da inépcia de um governo desqualificado, é de uma maldade atroz. Milhões de pessoas jogando com a sorte e a possibilidade de serem contaminadas pelo novo corona vírus e vendo isso sob uma perspectiva menos negativa do que o ficar em casa e terem a certeza da morte por inanição. Desempregados, desalentados, vítimas do mais perverso capitalismo (alcunhados de “empreendedores”), os dispensados por empresários que não suportam ter suas margens de lucro reduzidas, enfim, toda essa massa de gente pobre, preta (ou quase preta, ou quase branca, quase preta de tão pobre)* formando filas quilométricas às portas das agências da Caixa Econômica Federal. Não quero entrar aqui nas inúmeras possibilidades de se auxiliar essa população necessitada neste momento de calamidade pública. Dentro ou fora do capitalismo. Não é esse o intuito deste texto. E, aqui, voltamos ao exercício de imaginar, ou, melhor, questionar, que país é este? Daqui, do alto de minhas férias bem remuneradas e gozadas em isolamento social e regada a tudo que a desigualdade pode proporcionar, o que vejo da janela são milhares de Tutsis nas ruas; outros tantos congoleses ou bosniaks se espremendo em linha indiana implorando por um arremedo de dinheiro que nem de renda básica pode ser chamado. Mas que para a grossa maioria da população é a diferença entre o risco e a certeza. Nosso dublê de Rei Leopoldo, que se arvora de ser a constituição, tal qual um Luís XVI acometido por uma gripezinha, caminha fortemente pra conseguir concluir o projeto bem sucedido de nação que vem sendo construído desde tempos coloniais - com alguns breves intervalos - e transformar, finalmente, o Brasil numa Ruanda ou Congo, colocando em marcha o maior genocídio jamais visto no século XXI. E o pior é que não tem chance do plano dar errado. * Excerto de Haiti - VELOSO, Caetano; GIL, Gilberto; Tropicália 25 Anos; 1992

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