• Victor Tufani

O povo votou na morte.

Parcela dos eleitores do Bolsonaro são abertamente fascistas. Não podem admitir a validade dessa doença, porque é uma coisa DEVASTADORA pra todos eles.


O Bolsonaro também foi eleito porque existia um sentimento de revanche difuso na população, contra todos aqueles que ou foram integrados por políticas públicas, ou foram agentes dessas políticas, ou os que simplesmente passaram a ter voz e existência pra questionar verdades inquestionáveis pra parte conservadora da população.


O Paulo Freire já dizia que ajustamento não causa problema, porque você ajusta diferentes camadas da população atribuindo papéis pra elas sem que elas sejam donas do próprio destino. O rico é feito pra mandar, o pobre pra obedecer, e acabou. Mas quando há esforço de INTEGRAÇÃO, você cria um imbróglio.


Porque pra quem acha que o lugar do gay é minoritário e ser minoria é sofrer preconceito mesmo, o fato de a população LGBT exigir tratamento igual, aos olhos deles, já é uma cobrança de PRIVILÉGIOS. O fato de existirem feministas, que são mulheres que falam pra outras mulheres que elas devem falar de igual pra igual com qualquer homem, é uma ameaça terrível. O fato de existirem ateus, que com a simples existência, sem precisar falar nada, põe em xeque toda a energia afetiva e psicológica que eles investiram na providência, é um acinte.


Então o Bolsonaro foi o cara que soube ORGANIZAR o desejo dessa galera de destruir esses atores em forma de discurso. Vamos acabar com as mamatas e benesses públicas pra que as minorias voltem ao seu lugar de vassalagem, invisibilidade e obediência, de onde nunca deveriam ter saído; vamos acabar com a ideologia de gênero, para que a heteronormatividade e o patriarcalismo sejam novamente inquestionáveis; vamos exterminar qualquer forma de contracultura na figura dos professores e intelectuais, aqueles que por saberem mais do que nós, se acham melhores do que nós.


Foi a doutrina da VINGANÇA do estúpido, do débil, contra tudo que é FORTE, VIVO E BOM. Necessariamente uma doutrina da morte. O problema é que eles achavam que a morte viria como devastação só pros seus inimigos, e de repente toparam com algo terrível, que não tem termômetro moral, o vírus.


Imagina, se esse vírus matasse SÓ quem votou no Bolsonaro, eles estariam mais felizes. Na verdade, estariam em êxtase, porque imediatamente se reconheceria a vingança da providência. Mas o vírus é alucinante pra eles justamente porque é errático, como qualquer força da natureza, ele mata o bom e o mau, o torturador espanhol e o Aldir Blanc.


E ISSO é que é insuportável pra eles. Porque eles são o alvo também, junto com seus inimigos, mas porque principalmente são o alvo de uma coisa ininteligível pra eles, que em vez de combater (porque ter um rival é sempre um alívio), simplesmente IGNORA o esforço afetivo de filiação deles ao bolsonarismo. Então eles admitirem que o vírus existe nessas condições e mata indiscriminadamente, mata enquanto corroi o governo DELES, incapaz de lidar com isso, é uma vergonha, uma humilhação, uma perda de potência que pode ser até mais debilitante do que a própria morte.

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