• Vascomunistas

Notas para um futuro distópico

Olá, queridos leitores. Como vão? Não pergunto se estão bem porque, no momento em que vivemos, soaria por demais ofensivo. Mas o querer saber como andam as coisas e como estamos lidando com elas é sincero e legítimo. Está é uma página de esquerda, acredito que vocês saibam disso. Mas esse conceito é meio vago. É tipo “rock&roll”. Existem muitas camadas, desde o blues elétrico inglês do início dos 60 (Kinks, por exemplo) até o grindcore mais berrado dos 90, como os também britânicos do Carcass. Da mesma forma, temos desde social democratas até autonomistas e anarquistas. Todos sob a mesmo guarda-chuva canhoto. Mas, de que se trata este texto, senão tentar trazer uma reflexão sobre algo que vimos acompanhando em todas as mídias em tempos de Covid. Todos temos visto, inúmeras matérias sobre a melhora em vários meio ambientes, todas relacionadas a consequências da pandemia causada pelo novo Corona Vírus. Rios mais limpos porque há menos atividade industrial, ar com menos dióxido de carbono por causa da diminuição do trânsito de pessoas e a redução de carros e ônibus em circulação. Tudo isso são boas notícias, claro. Mas, quero tratar aqui mais especificamente de uma figura que, vira e mexe, brota neste tipo de debate: o ecofascista. Aquele que se prontifica a identificar o ser humano como problema ambiental e compará-lo a uma espécie monocelular que deve ser exterminada para que haja a supremacia do meio ambiente e o retorno da terra para Zanzibar ou Shangri-La. Ou seja lá o nome do paraíso livre de gente em que meia dúzia de escolhidos bebem drinks saídos de troncos de árvores à beira de um lago verde esmeralda e sob um céu límpido como nunca. Vemos este tipo de comportamento também dentro das nossas esquerdas, para surpresa geral de 0 (zero) pessoas. Afinal, o nosso esporte preferido nestes tempos de redes sociais é dar palco pra este tipo de debate e levantar hashtag de direita nem que seja pra xingar, não percebendo que isso dá visibilidade ao inimigo, o que é justamente seu maior desejo. Apontar o dedo para o ser humano como causador da incapacidade dos meios ambientes se renovarem é uma solução até pueril, de tão simplória. Isso é o que Nelson Rodrigues chamaria de óbvio ululante. Mas a análise deve ser mais profunda. Afinal, cá estamos há pelo menos 15 mil anos como coletivos e com linguagem e os registros de interferência tão brusca na, digamos, natureza, são recentes e remontam ao período após a primeira revolução industrial. Portanto, a acusação do homem pelo homem ser o lobo do lobo do homem não dura dois parágrafos. O que temos visto nas matérias sobre golfinhos nos canais de Veneza ou sobre a possibilidade de avistar-se o Monte Quênia desde Nairóbi devem, antes de qualquer coisa, demonstrar que a grande praga não é o humano, posto que ainda cá perdura. E, ao tirar o humano da equação, sobra quem? Ele mesmo, o inimigo na outra margem, o alvo a ser abatido: o capitalismo e seus meios de produção. E antes que saquem a carta “mas e a China, que é o maior poluidor?”, vamos entender que a China só é o grande parque fabril da humanidade por causa do mundo em que está inserido e não o contrário. Os níveis de desperdício e consumo gerados pelos grandes centros do capitalismo são de grandezas que fica difícil até pontuar neste texto, tão extra periféricas que são. O consumo de energia elétrica é um grande balizador para entendermos que o problema maior não é a exploração do planeta “per se” e sim a forma e o porque o fazemos. Pesquisando para este texto, me deparei com um outro publicado pelo ótimo portal Outras Palavras (disponível em https://bit.ly/2XJrGi3), em que o objetivo principal era tratar do consumo energético relacionado à mineração de bitcoins. Não satisfeito em tratar da excrecência que é o monstruoso consumo elétrico para gerar um meio de pagamento, que é superior ao da Colômbia ou Bangladesh, identificamos no texto, o que aliás, também ilustra seu título, o tamanho da desigualdade energética global e das suas relações com níveis de consumo e desperdício, como falei acima. A Califórnia, por exemplo, consome para JOGAR VIDEOGAME a mesma quantidade de energia elétrica que 102 milhões de etíopes. Quer mais? A mesma Califórnia utiliza para manter aquecidas suas piscinas e banheiras os mesmos megawatts que 16 milhões de moradores do Senegal. Isso nos dá uma medida do quão danoso para o meio ambiente é o modo de vida do centro capitalismo. E, não. Não estou falando de você, João, dono de um Siena 2014, motorista de aplicativo que interrompe a jornada para comer um joelho com Guaravita e se orgulha de trabalhar 16 horas por dia. Não esqueçamos que não somos ocidente. Somos periféricos. Sabendo disso, poderemos lutar melhor o combate. Quando falo de níveis de consumo, me refiro também à função econômica das coisas. A função econômica de um carro é o transporte. Não importa se ele é 1.8, tem vidro elétrico ou é alemão. Os níveis de consumo do centro do capitalismo, ou seja, dos países desenvolvidos de acordo com a OMC, corresponde a 80% do planeta, a despeito de representarem apenas 20% da população mundial. Temos, com base nos números acima, portanto a solução para a encruzilhada ambiental que se descortina com o advento da Covid-19. Queremos rios mais limpos? Queremos ar respirável? Queremos campos verdejantes? Devemos, pois, aproveitar este momento e refletirmos sobre nosso consumo, sim. Mas, principalmente, sobre o tipo de sociedade em que desejamos viver, para podermos sair à luta firmes e fortes ao fim desta pandemia, ocupando espaços e definindo objetivos. E sempre contestando Jameson (não o uísque, maravilhoso) e Zizek: jamais devemos achar que é mais fácil o fim do mundo que o fim do capitalismo. Por Euler de Freitas

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