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"Golden Shower" em público serve a quem?

Desde a publicação do tuíte de Bolsonaro associando o carnaval e a esquerda a uma cena em que pessoas são filmadas praticando o "golden shower" sobre uma marquise, o assunto se tornou o mais comentado no país e nos principais veículos da imprensa internacional. A pesquisa aumentou 660% em um dia nos mecanismos de busca.


Inevitavelmente surgiram comentários apoiando ou desaprovando o ato performático, sem falar na sua desnecessária e criminosa exposição e associação aos detratores do atual governo pelo presidente da república, um sujeito medíocre que desonra o cargo que ocupa. Esse vocês todos/as já conhecem bem.


Não podemos deixar nosso posicionamento de lado, tendo em vista que o tema levantou discussões na própria (dita) esquerda, dividida, nas redes sociais, em caricaturas de "pós-modernos" e "autoritários".


O vídeo mostrado pelo presidente foi só mais uma atitude performática que nada tem de novo e que já provocou polêmica várias vezes em episódios passados, como na ocasião em que um grupo enfiou imagens católicas no ânus, ou na performance "Xereca Satânica". Não glorificamos nem nos interessamos pela prática do chamado "terrorismo poético". Nem sequer sabemos se as pessoas mostradas no vídeo simplesmente praticaram o atentado ao pudor, incentivadas pelo clima de licenciosidade do carnaval, ou se reconhecem ou reivindicam o que estavam fazendo como terrorismo poético, como alguns elementos da dita esquerda se apressaram em classificar.


Nosso posicionamento é claro: Não acreditamos que esse tipo de demonstração pertença de qualquer forma à esquerda. Na verdade, acreditamos que é profundamente equivocado o discurso de uma militância identitária, minoritária e ultraliberal que faz questão de associar as imagens à população LGBT e à esquerda de maneira geral. Entendemos que há inúmeras formas positivas de comunicar uma ideia através de provocações estéticas, mas que na contramão do que supostamente pretende parte da militância, performances assim acabam por ratificar a mensagem homofóbica de Bolsonaro e da direita, reforçando estereótipos e desconstruindo o trabalho de esclarecimento da classe trabalhadora sobre o que significa ser LGBT. Da mesma forma que as pessoas heterossexuais não são iguais, não partilham dos mesmos desejos e práticas, a população LGBT é igualmente (e mais ainda!) plural, e associar toda essa parcela da população ao "golden shower" em público coloca mais em risco suas vidas e sua paz, e reforça o preconceito e a violência.


Na Vascomunistas, desde o começo, postamos conteúdo e esclarecemos todos os nossos leitores e leitoras, e somos reconhecidos e elogiados por isso. Sabemos muito bem que provocar a dissonância cognitiva, tentando CHOCAR as pessoas gratuitamente, produz o efeito que só o Bolsonaro e seus seguidores desejam: Afastar ainda mais os trabalhadores menos esclarecidos das pautas de esquerda e inclusive de promoção dos direitos LGBT, da mulher e demais minorias. Entendemos que a liberdade sexual também depende do direito à privacidade, e que uma demonstração de nudez em público, encenada por quem quer que seja, casal hetero ou homossexual, não contribui para o bem estar e o aprendizado de ninguém. Muitas pessoas se ofenderam justamente porque crianças assistiram à cena, desnecessariamente. Isso em NADA condiz com os valores da esquerda, que sempre prezou em primeiro lugar pelo bem comum, pelo bem-estar coletivo. As liberdades individuais de maneira nenhuma são sacralizadas pela esquerda quando tendem a agredir e ofender outras pessoas. Isso quem faz e pensa é a direita.


Nossa luta contra o atraso, o preconceito e o conservadorismo é implacável. Mas nosso interesse é esclarecer tantas pessoas quanto for possível, para que melhorem e se tornem mais do que simplesmente "tolerantes", mas aliadas na luta por um país mais igual e plural. Agora, se o seu objetivo é simplesmente chocar e extravasar qualquer desejo, faça isso em nome de si próprio, individualmente. Não atribua suas vontades individuais, despreocupadas com a liberdade alheia, à esquerda ou aos brasileiros e brasileiras LGBTs.


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