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Foi-se o último Griô

Por Euler de Freitas:


Foi-se o último Griô.


Sou Mangueirense. Isso até o mundo mineral sabe. E, como plebeu do Palácio do Samba, trago comigo sempre o verso de seu Angenor, em que fala (no presente, revisor!) que “Em Mangueira quando morre um poeta todos choram”.


Tenho certeza de que o último Griô da maior festa popular do planeta viveu tranquilo. Porque sabia que alguém(todos?) haveria(m) de chorar quando ele morresse.


Do alto dos meus 42 anos, sempre tive um sentimento altamente ambíguo quando falava, lia ou ouvia sobre Luiz Fernando Ribeiro do Carmo. Figura controversa, complexa, como hão de ser os mais humanos. Cito meus sentimentos dúbios no que se refere a Laíla por conta das raizes mangueirenses acima descritas, uma vez que o oráculo das escolas de samba fez da Beija-Flor de Nilópolis uma potência tamanha que quase sempre frustrava meu pobre coração verde e rosa.


Percebam que utilizei os verbos “falar, ler e ouvir” para trazer a rinha de amor e ódio. Porque se tivesse usado o verbo “ver”, esse último jamais entraria no texto, tamanho era o esplendor dos desfiles que colocava no chão.


Mestre da Harmonia desde sempre, entendeu como poucos o que significa um desfile. Carros alegóricos, bom samba, intérpretes poderosos, fantasias magníficas, tudo isso é importante mas não é o fundamental. O cimento, a base, a fundação de uma escola sempre foi, é e sempre será seu povo. O canto do povo; o gingado do povo, forjado no cansaço de apanhar; a catarse do povo sofrido - seja de Nilópolis, da Tijuca, de Caxias, da Ilha, do Brasil, enfim - que explode em verso, prosa e samba num domingo ou segunda qualquer, sempre ciente de que voltaria no sábado para receber seu troféu.


Medalhas teve muitas. Mas nenhuma delas eram mais importantes que seu povo. O povo do santo, seus guias, que estavam sempre o guardando e protegendo, explicitados nos fios de conta que, escapulários que eram, chegavam antes e deixavam o recinto após ele, abrindo caminhos e protegendo deste mundo perverso em que vivemos.


Quis o Orum, pra onde volta pra iniciar mais um desfile, que fosse contemporâneo deste assassinato em massa que vem sendo perpetrado em nosso país.


Mais uma vítima, assim como outro meio milhão, assim como amigos queridos, assim como outros mestres que morreram de uma doença evitável: evitável em 2018; evitável em 2020; evitável em 2021: foram mortos de Jair Messias Bolsonaro.


Eu, do lado de cá e rezando da cartilha de outro mestre, Luiz Antônio Simas, sei que a maior prova de resistência será permanecer vivo para render homenagens no gurufim gigante que será o próximo carnaval, em que, seguramente, Laíla terá lugar nas mais altas prateleiras. Manter-me são para sugerir um cântico dos mais belos à nossa imensa torcida (já não tão) bem feliz e render-lhe tributo e continência quando voltarmos a frequentar seu São Januário tão querido.


E lutando, com as armas que tivermos, para que o ódio causado por sua morte e a de tantos outros seja combustível para retornarmos o controle de nossa tão combalida nação.


Aliás, canção esta que poderia ter o nome de Laíla ao lado de Dorival e Silas. Mas não podemos mais sugerir o adendo porque outro gigante do samba e do Vasco, Aldir, também se foi, vítima de Bolsonaro.


Vá em paz, Laíla. Saiba que o mundo do samba e o mundo do Vasco honrarão seu nome e seguirão seu legado. E que comece a festa no Orum!



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