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EXCLUSIVO: Juninho Pernambucano fala em primeira mão ao The Guardian!

Entrevista concedida a Thiago Rabelo - The Guardian.



"Há milhares de George Floyds no Brasil."


O ex meio-campo do Lyon fala sobre o racismo, a condução do país sob Jair Bolsonaro e como os brasileiros são ensinados a pensar apenas em dinheiro.


Como tantos outros futebolistas e antigos profissionais, Juninho Pernambucano poderia facilmente ficar em silêncio e não discutir as questões mais importantes da vida. Mas isso, de acordo com o ex-jogador do Lyon e do Brasil internacional, seria uma traição aos seus princípios.


Estamos falando há 30 minutos quando ele se derrama em lágrimas pela primeira vez durante uma entrevista que dura duas horas e meia. A situação no Brasil, terra natal dele está fora de controle, tendo o presidente, Jair Bolsonaro, falhado miseravelmente no combate ao coronavírus. Esta semana o país ultrapassou as 65.000 mortes e teve quase 50.000 novos casos num dia. O número total de casos já ultrapassou os 1,6 milhões. É o segundo país mais atingido do mundo.


O Brasil é também um país de crescente desigualdade e tensão racial sob a liderança de Bolsonaro, e Juninho está discutindo a educação e dignidade quando a sua voz começa a ser escutada.


"Temos um sistema educativo pobre no Brasil, diz ele. O povo rico diz que temos de investir na educação, mas como? Precisamos lutar contra a fome, que foi o que [o ex-presidente] Lula disse. Se temos fome, não temos confiança. Imagine um pai ou uma mãe que não são capazes de fornecer três refeições por dia para os seus filhos. Mas ainda mais importante do que a educação é a dignidade. A dignidade humana é um direito que todos nós precisamos de ter. Desculpe, isto me deixa muito emocionado..."


A dignidade tem sido escassa para a maioria dos brasileiros nos últimos tempos e a forma como o governo lidou com a crise do coronavírus só veio agravar a situação.


"Sinto uma profunda tristeza, diz Juninho, e sua voz volta a falhar. Desespero. Estamos fazendo tudo muito mal; indo contra tudo o que o resto do mundo está fazendo. Sou brasileiro, sei que somos um país pobre e que o nosso povo precisa de trabalhar, mas isto é uma questão de vida. Se tivéssemos tido um Lockdown, poderíamos estar perto do fim disto, mas não, é desesperador ver o nosso país agora."



Juninho, um antigo meia do Sport Club do Recife e Vasco da Gama que vive atualmente em França e trabalha para o Lyon como diretor esportivo, sentiu em 2018 que já não podia ficar no Brasil. Mudou-se para Los Angeles para estar com a sua filha, que estava grávida, e um ano mais tarde regressou a França. Diz que já não está em contato com "80 ou 90%" da sua família e amigos devido a desacordos sobre Bolsonaro e a sua política.


"No início, por volta do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, tentei falar com as pessoas e mostrar-lhes vídeos e tudo sobre o que se estava acontecendo, diz ele. Bolsonaro é um filho da WhatsApp e de notícias falsas. As pessoas que apoiavam o Bolsonaro estavam em maioria e foi decisão minha me afastar delas. Sei que alguns deles estão agora a lamentando a decisão de terem votado. Pensavam que o Bolsonaro era a única opção.


O empresariado no Brasil não tem empatia e está nos ensinando a não ter também. A elite não compreende quão grandes são as desigualdades financeiras no país e se estas se agravarem, haverá violência. Estamos agora a assistir à sua desintegração. Temos grandes jornalistas no nosso país, mas não uma editora que vá em frente e publique. Mais de 42 milhões de pessoas não votaram em 2018. Se a imprensa brasileira tivesse feito o seu verdadeiro trabalho, Bolsonaro nunca teria sido eleito. Apenas jornalismo real: escrever e dizer a verdade a todos!"


A enxurrada de notícias falsas no Brasil sob Bolsonaro e durante as duas últimas campanhas eleitorais são temas para os quais Juninho continua a falar. Desde 2014, o Brasil tem enfrentado uma crise política e, segundo Juninho, o impeachment da candidata do Partido dos Trabalhadores Dilma Rousseff em 2016 e a vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018 são os principais fatores por detrás da agitação.


"Quando se derrota Dilma de uma forma tão desprezível, quebra-se uma jovem democracia. Bolsonaro vencer é o resultado de um juiz orgulhoso como Moro no caso Lula, uma cultura de ódio contra o Partido dos Trabalhadores e notícias falsas, diz ele."


Há agora algum movimento, com o STF que inicia uma investigação sobre as notícias falsas que têm inundado as redes sociais, e há algumas semanas atrás a polícia invadiu endereços ligados ao Bolsonaro. Juninho tenta ajudar nesta luta, mas sem muito sucesso.


"Twitter, Facebook e WhatsApp decidiram a eleição do Brasil, diz ele. Estou cansado de relatar notícias falsas no Twitter. Estou sempre mandando mensagens. Eles são culpados pelos nossos problemas e não houve qualquer ação contra eles.


Veja quantos canais de extrema-direita existem no YouTube. Recebem uma enorme quantidade de dinheiro para espalhar notícias falsas, mas estão autorizados pelo YouTube. Reporto quase todos os dias [para as empresas de comunicação social], mas raramente recebo uma resposta."


A nossa conversa agora fala sobre o assassinato de George Floyd em Minneapolis no dia 25 de Maio e sobre o movimento Black Lives Matter. Mais de metade da população brasileira identifica-se como negra e o país teve vários casos semelhantes ao de Floyd, incluindo João Pedro, um rapaz de 14 anos morto pela polícia brasileira em Junho, ou Ágatha Félix, que tinha apenas oito anos quando foi alvejada pelas costas pela polícia numa favela do Rio, em Setembro de 2019. Mais tarde, ela morreu.


"Isto é claramente racismo, uma confirmação do tipo de política violenta que temos no país neste momento, diz Juninho. Como foi possível uma criança de oito anos ser baleada pela polícia como aconteceu no ano passado no Complexo do Alemão? Como é possível viver depois disso? Inacreditável. Olhe George Floyd. Ele não conseguia respirar. Ele é um ser humano. Não consigo imaginar como é que a polícia consegue fazer isso. É racismo e muito, muito triste."


Juninho falou também sobre os recentes comentários de Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, que é deputado e também representante de Steve Bannon e seu movimento na América do Sul. Eduardo Bolsonaro disse recentemente que não havia George Floyds no Brasil.


"Há milhares de George Floyds no Brasil e milhares de outros que sofreram em silêncio que nós desconhecemos, diz Juninho. É desumano dizer que não temos George Floyds no Brasil. Os tiroteios acontecem todos os dias. Os homossexuais também são perseguidos e essa é uma das coisas que mais me irritam com as pessoas que apoiam o Bolsonaro. No entanto, ninguém consegue vencer o tempo. Um dia, todos irão descobrir quem realmente é."


O antigo meio-campo, mais conhecido pelos seus incríveis gols de falta durante uma carreira de 20 anos e que tem mais de 40 títulos, diz ter aprendido muito ao se mudar para a Europa.


"No Brasil somos ensinados a nos preocuparmos apenas com o dinheiro, mas na Europa eles têm uma mentalidade diferente. Inconscientemente, fiz um plano de carreira porque queria ir para outro grande clube no Brasil, e não apenas jogar por lazer. Fui ensinado a ir pra clubes que me pagava mais. Essa é a mentalidade brasileira.


Olhem para Neymar. Foi para o PSG só por causa do dinheiro. O PSG lhe deu tudo, tudo o que ele queria, e agora quer sair antes do fim do seu contrato. Mas agora é o momento de retribuir, de mostrar gratidão. É uma troca. Neymar precisa dar tudo o que puder em campo, para mostrar total dedicação, responsabilidade e liderança. O problema é que os empresários no Brasil tem uma cultura de ganância e quer sempre mais dinheiro. Foi isto que nos foi ensinado e é o que aprendemos."


Então Neymar está deixando a desejar, ou a sociedade brasileira?


"Foi simplesmente o que ele aprendeu. Preciso distinguir entre Neymar como jogador e Neymar como pessoa. Como jogador, ele está entre os três melhores do mundo, ao mesmo nível que Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Ele é rápido, duro, consegue marcar e fazer assistências como um verdadeiro nº 10. Mas como pessoa, penso que ele é culpado porque precisa se questionar e crescer. Neste momento, porém, ele está apenas fazendo o que a vida lhe ensinou a fazer."


É evidente que Juninho está chateado com a situação atual em casa, mas é igualmente evidente que ama o seu país e quer desesperadamente que as coisas fiquem bem. No final de uma longa e fascinante entrevista, tenho que perguntar a Juninho se ele tem alguma esperança para o futuro.


"Ah, sim, claro que tenho que acreditar, responde ele. Cresci em Recife, vivi no Rio, em Lyon, no Qatar e nos Estados Unidos. O lugar que eu mais amo é o Brasil.


Sei que é difícil neste momento, mas eu sou pai, avô e quero um mundo melhor. Temos pessoas más, como a família Bolsonaro, mas também temos pessoas boas. Temos médicos, professores e artistas maravilhosos. Mas precisamos mudar o mais depressa possível. Temos os recursos para ultrapassar isto."









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