• Victor Tufani

Bolsonaro, o doutrinador

Bertrand Russell, o grande filósofo e matemático inglês do século passado, afirmava categoricamente que a doutrinação é o subterrâneo que acessamos quando a tarefa da educação é fracassada.

Obviamente, o matemático, como todos os cientistas, filósofos e educadores de bom senso aqui, na Inglaterra ou em qualquer outra parte do planeta, divergem do presidente brasileiro e seus ministros, para os quais doutrinar é ensinar o contraditório. Russell nos ensina que é justamente quando diferentes pontos de vista deixam de ser encarados como pluralidade e riqueza intelectual e passam a ser vistos como equívocos, blasfêmias e venenos a serem censurados pelas forças oficiais, que a erva daninha do autoritarismo e da propaganda proliferam.

Bolsonaro, no entanto, nunca fez questão de enganar: Ele sempre foi um doutrinador autoritário, para quem qualquer visão de mundo diferente da sua deve ser perseguida e massacrada. Jamais fez questão de atuar como o parlamentar, o candidato ou o presidente de todos os brasileiros — ao contrário, sempre serviu de garoto-propaganda a seus asseclas da extrema-direita e a ninguém mais. Os que o elegeram o fizeram conscientes de tudo isso, porque, pelo menos, Bolsonaro não fingiu.

Suas declarações de apoio ao Escola sem Partido e à liquidação do ensino de filosofia e sociologia nas escolas são há muito conhecidas. Hoje, no entanto, o presidente anunciou em seu Twitter que também mira as universidades, e pretende “descentralizar recursos” do Ministério da Educação para a pesquisa nessas áreas:

A tentação de rejeitar automaticamente o argumento de Bolsonaro é grande, mas não basta diante das milhares de curtidas de seus seguidores que, se já não pensavam o mesmo, agora são influenciados pelo tuíte do presidente.

Não é óbvia para a maior parte da população brasileira a estreita ligação entre os temas e competências que Bolsonaro afasta em seu discurso. Em parte porque quase todos frequentamos a escola, mas poucos brasileiros vão às universidades. E destes, só uma fração mínima vai à boa universidade, onde há pesquisa, debate e a chance de perceber que o conhecimento é total, e não separado em alas com diferentes pesos e utilidade como aprendemos ao longo da vida escolar. Poucos de nós tem a oportunidade de refletir sobre este fato.


Em parte porque mesmo o ambiente acadêmico brasileiro carrega vícios típicos de sociedades de baixa performance como a nossa: Quando não é possível exigir qualidade, porque a base necessária foi negada à maioria, nos contentamos com a mediocridade. Daí a tremenda dificuldade de nossos professores, mesmo aqueles em formação, jovens e (supostamente) mais arrojados, exercerem o ofício de forma transdisciplinar, tal como ele ocorre na vida comum. Nenhum de nós é um especialista no cotidiano. É necessário que a escola também demova a forma de grade de seu currículo para que todos entendam que não há como ser engenheiro ou arquiteto e urbanista sem o estudo da sociologia; que a filosofia é a base atemporal e imprescindível de toda a matemática; que sem ela não pode haver universidades de Direito e medicina.

É claro que o discurso de Bolsonaro e de seus eleitores não é resultado da incompetência das escolas e universidades, que lutam contra a sabotagem vinda de todos os lados, mas da própria ideologia a que estes aderem, que transforma todo sujeito crítico em inimigo da nação. É o presidente que não acredita na educação, tal como um pai analfabeto que, tendo reunido fortuna somente através do trabalho, dispensa a educação dos filhos. A questão, mais uma vez, é que não há como defender o argumento: De uma forma ou de outra, um golpe nas pesquisas em ciências sociais e filosofia será sentido por todos os demais cursos de qualquer universidade pública no país.

Bolsonaro ignora que ciência alguma brota do chão sem passar antes por um longo período de reflexão e questionamento filosóficos que a acompanham por toda a história ao longo de seu desenvolvimento. Que tampouco os atores que produzem e aperfeiçoam o discurso científico vivem alienados de seu tempo e espaço social. E mesmo que tentássemos defender o seu modo pragmático de olhar o mundo, privilegiando o “retorno rápido ao contribuinte”, é evidente que, no mínimo, um engenheiro bem versado nas questões sociais de seu entorno será mais competente do que outro ignorante a respeito do mesmo assunto.

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