Barbosa: Preso perpétuo por ser negro no Brasil.

Barbosa quando atuava pelo Vasco da Gama.


A história do goleiro Barbosa é um misto de emoções, sejam elas boas e ruins.


Emoções das quais talvez só o futebol como um dos esportes mais amados, praticados e que mais exprimem as relações do cotidiano do ser humano podem expressar.


Mas, para entendermos um pouco da história desse nobre homem, que muito fez em vida a nós brasileiros, vamos contar um pouco de sua vida:


Barbosa foi um dos maiores goleiros da história do nosso país e ídolo do Vasco da Gama. Defendeu o Vasco e a Seleção Brasileira, sendo titular em ambos. Foi um arqueiro seguro, elástico, extremamente técnico e corajoso, além de ser excelente pegador de pênaltis.


De forma curiosa, Barbosa começou sua carreira como ponta-esquerda no extinto Comercial de São Paulo, no ano de 1940, e já como goleiro se transferiu para o Ypiranga, clube que jogou até 1944. Devido às ótimas atuações, foi contratado pelo Vasco em 1945, clube que defendeu e foi titular de 1946 até 1955. Na seleção, foi goleiro entre 1949 e 1953, e foi campeão Sul-Americano em 1949 pela seleção (jogo ocorrido no Estádio de São Januário, RJ).


Na Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil e um dos maiores eventos esportivos da história do nosso país, Barbosa foi titular incontestável e aquele evento era a oportunidade de demonstrar ao mundo e ao próprio povo brasileiro, que o Brasil era um país que era evoluído, um país grande, com muito progresso, o qual era digno de receber não só a elite do futebol mundial, mas sim as elites dos países mundiais.


Além disso, a Copa de 1950 era a oportunidade única de reafirmar que a mistura de raças no nosso país era um fator extremamente positivo, a construção do Maracanã também foi uma grande propaganda para o país.


Durante a competição, o Brasil foi melhorando de forma gradativa, todos estavam orgulhosos e vendo que de forma harmônica, a mistura de raças era viável, produtiva e principalmente vitoriosa. Porém, na final da Copa, a seleção brasileira perde para o Uruguai, e começam a ser questionados os pressupostos da mestiçagem no país. O lance que gerou o gol de Gigghia pelo Uruguai, estavam envolvidos os jogadores negros e mestiços, os quais eram Barbosa (a quem levou o maior peso da culpa), Bigode e Juvenal.


À partir daí, variadas explicações de cunho racista foram dadas e debatidas para justificar a derrota (perceba que a culpa foi dada pela cor dos jogadores e não por um erro técnico), entre tais explicações, a de que negros e mestiços não podiam vestir a camisa da Seleção Brasileira porque não tinham maturidade e equilíbrio suficiente para suportar o peso da camisa, a pressão emocional de uma partida de futebol. Ou seja, estavam afirmando que negros, mestiços e mulatos não contribuíam de forma positiva para a consolidação da sociedade brasileira.


Pior, acadêmicos famosos como João Lyra Filho (Introdução à Sociologia dos Desportos, de 1973) e Mário Filho (O Negro no Futebol, de 1964) propagaram racismo em suas obras e explicações para a derrota, quase que dando um ar científico às teorias racistas, fortalecendo de forma “científica” o senso comum e fornecendo aos intelectuais algo que pudesse “comprovar” suas teorias racistas.

Nesse momento, ocorre uma nova situação, as explicações racistas para explicar a triste derrota brasileira eram inúmeras, e nisso se percebe a importância do futebol para se explicar e explicitar as relações sociais e raciais do Brasil.


Barbosa, negro e goleiro naquela época de um futebol elitizado e mais racista do que é hoje, foi pego como o maior bode expiatório da derrota brasileira.


A pena máxima por qualquer crime, no Brasil, é de 30 anos. Mas eu sou considerado culpado daquela derrota há mais de 40 anos”, dizia Barbosa.


Outro triste episódio na vida de Barbosa, foi quando o treinador Carlos Alberto Parreira barrou o lendário goleiro de falar com os jogadores durante o treinamento para uma partida decisiva entre Brasil e Uruguai em 1993, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994


Proibi mesmo. Não quero encontros com Barbosa ou qualquer outro jogador do passado. Isso não acrescenta em nada.” Disse Parreira ao Jornal o Globo, em 1993.


Na ocasião, Barbosa disse o seguinte: “Mas eu também não quero me vincular minha imagem à dos jogadores atuais, porque se perderem para o Uruguai vão dizer que sou um fantasma, um mau agouro. Sinto-me injustiçado. Um dia, talvez quando estiver morto, reconhecerão meu trabalho.”


No final da vida, em dificuldades financeiras, esquecido pelos fãs e antigos amigos, culpado sozinho de uma derrota coletiva, faleceu em 7 de Abril de 2000.


Apesar do racismo e do esquecimento de muitos, a história de Barbosa jamais será apagada do futebol.

Campeão Sul-Americano pelo Vasco e pela Seleção Brasileira, Barbosa mesmo sofrendo com o racismo, é considerado um dos maiores, senão o maior goleiro da história tanto do Vasco da Gama, quanto da Seleção Brasileira.


Moacyr Barbosa Nascimento, negro, trabalhador, craque do futebol, um grande brasileiro. Como frisou de forma emocionada, João Ernesto da Costa Pereira, ex diretor do Centro de Memória do Vasco da Gama:


Barbosa, craque inesquecível, o que fizermos em sua memória será sempre muito pouco perto do que fizeste por nós.”

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