• Victor Tufani

Bacurau, marxismo e o fetiche da hegemonia

AVISO: CONTÉM SPOILERS!


Bacurau é o filme que seu primo bolsominion só vai assistir por acidente. Se isso acontecer, é provável (muito provável) que ele saia da sala reclamando de "propaganda comunista". De fato, como não reconhecer nossos empoderados concidadãos decididamente de direita nos personagens motoqueiros que passam pela cidadezinha em missão de reconhecimento, desdenhando a oferta de visita ao Museu Histórico de Bacurau — o que poderia ter mudado radicalmente os rumos da empreitada estrangeira na região — e tentando parecer mais brancos e menos latinos, divertindo os norte-americanos à mesa?


Como não reconhecer o Brasil de Bolsonaro nessa ficção científica ambientada "daqui a alguns anos" em que um "Brasil do Sul" oferece uma recompensa pela cabeça de Lunga, o formidável anti-herói habitante desse faroeste nordestino que foi separado do resto do país, onde um governo autoritário comercializa a vida da população que não interessa e promove execuções públicas em rede nacional?


Bacurau não fala de um Brasil meramente ficcional, mas de um dos possíveis Brasis futuros, a que a história inexoravelmente nos arrastará.


Esta não é uma resenha do filme. A internet, a essa altura, está lotada delas, redigidas em sua maioria por gente dita de esquerda, em que se vê uma certa reserva e demonstração de nojo contra o volume de sangue, contra os inimigos bem identificados, contra a simpatia pelos criminosos Pacote e Lunga, contra a vibração dos tiros e facadas e contra a exposição das cabeças cortadas dos fascistas estrangeiros. A "resistência", para muitos dos que se dizem nossos aliados, estaria proibida de agir, mesmo diante de uma situação de vida ou morte. Quem pensa assim contribui para a manutenção do monopólio da violência pela direita, que não costuma ficar chocada com cenas de bang bang.


Nós não insistiremos no erro de tentar encontrar pontos de contato, simpatia e diálogo com o fascismo. O filme, felizmente, não comete esse equívoco.


Um documento de Agustín Cueva intitulado "O Fetichismo da Hegemonia" propõe um mergulho em Gramsci e a correção de um equívoco popularizado, segundo o autor, até por seus seguidores mais fervorosos, que converteram o intelectual italiano num anti-Lênin. Penso que esse artigo tem muito a ver com o realismo fantástico de Bacurau e o filme pode nos ajudar a entender a teoria marxista de Cueva.


Segundo Agustín, uma leitura descuidada do conceito de hegemonia cultural de Gramsci pode nos levar a dois equívocos principais: O primeiro, mais óbvio, é encarar a dominação em nível cultural e ideológico como uma categoria autônoma de dominação que tem o poder de modificar qualitativamente as estruturas sociais antes que haja uma transferência de poder real para as mãos da classe trabalhadora.


Esse equívoco deriva de uma interpretação vulgar do pensamento de Gramsci e é a mola principal da crítica de direita que supõe a existência do "marxismo cultural", uma estratégia de proliferação das ideias de esquerda que, se for completada, corresponderá à vitória do socialismo no Brasil. Uma fantasia, pois o conceito de hegemonia cultural refere-se não a uma disputa de ideias sobre um povo sujeito à doutrinação, mas de um mecanismo de exploração das classes dominantes sobre as dominadas, sempre. Gramsci não ignorava que a ideologia dominante é a ideologia das classes dominantes, e inclusive, como sublinha Cueva, nunca deixou de lembrar que uma revolução depende sempre da mobilização de certas forças "técnico-militares", independentemente do complexo intelectual envolvido no processo revolucionário.


O segundo equívoco, que é o ponto nevrálgico da crítica de Cueva, está efetivamente presente nos escritos de Gramsci, quando o italiano propõe uma diferenciação do caráter da burguesia e do Estado e das formas de dominação na Europa ocidental e na Rússia czarista, que ele trata como "oriente".


A ideia de Gramsci é que nos Estados nacionais mais avançados (em seu exemplo, a Europa ocidental), a manutenção da ordem é feita mais através de dispositivos ideológicos e culturais e menos pela coação direta, pelo emprego do fator "militar", na medida em que a sociedade civil se fortalece e se complexifica, demandando soluções mais democráticas e menos violentas. Enquanto que na Rússia mais atrasada a estrutura da sociedade civil era mais débil e demandava o emprego mais frequente e abrangente da força.


Essa ideia parece correta se olharmos para a Europa e a América Latina, por exemplo, onde lá a política tem a aparência de ser feita menos na "boca do fuzil", para empregar o termo citado por Cueva, e de forma mais democrática e "civilizada". Mas ela é apenas aparentemente verdadeira, e o próprio Lênin, em "Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo", apresenta uma tese contrária e que explica de forma mais acertada essa dinâmica da dominação em diferentes sociedades.


Lênin explica que, na fase imperialista, a organização da dominação se dá não somente entre a classe trabalhadora e a burguesia nacional imediata, mas em escala global. A burguesia europeia, que parece dominar a classe trabalhadora europeia a partir de dispositivos mais ou menos democráticos, também exerce domínio sobre as classes trabalhadoras das colônias na América e na África e outros países sob seu controle. Ou seja, não há uma correlação absoluta entre uma dada sociedade civil e a forma de dominação empregada pelas suas classes dominantes.


É quase automático ligar a conclusão de Lênin à situação da América Latina. As nossas ditaduras e deposições de governos nunca foram operadas simplesmente pelas burguesias nacionais isoladamente, mas sempre por burguesias internacionais, que estão situadas acima das classes dominantes coloniais/periféricas segundo a lógica imperialista. Em outras palavras, não é a burguesia brasileira que determina um golpe militar ou uma ditadura no Brasil, mas a burguesia norte-americana, cujo império nos governa em escala superestrutural.


Da mesma forma, não é o prefeito de Bacurau que transforma a cidade num campo de caça, mas as próprias forças estrangeiras. O prefeito, que podemos situar, em nosso exemplo, na figura da burguesia nacional, é um mero atravessador.


O desfecho do filme traz lições preciosas a todos os marxistas: A primeira é que a hegemonia cultural não é um simples fator de disputa. Não basta convidar ou convencer a população a compartilhar de nossas ideias progressistas, de abundância e igualdade para que se resolva magicamente a questão social. Lutamos contra forças mais poderosas que nos querem subdesenvolvidos e subservientes. Forças que se espraiam para além das fronteiras regionais e nacionais, e que não hesitarão em nos massacrar, se for preciso.


A segunda é que ainda que os países do norte pareçam ser mais civilizados, democráticos e intransigentes na defesa da vida, eles jamais nos tratarão como iguais. A manutenção da paz interna na Europa e nos Estados Unidos não corresponde à manutenção remota da paz nos países sob sua esfera de influência, mas frequentemente ao contrário.


A terceira lição é que não podemos nos iludir quanto aos métodos de resistência. Não haverá "balbúrdia" nas universidades que resista ao que o Brasil de Bolsonaro nos reserva, se os seus planos não forem frustrados. Não haverá ajuda estrangeira quando a integridade física dos cidadãos de esquerda, progressistas e opositores do protótipo de regime fascista-neopentecostal for ameaçada pelas hostes reacionárias. Somente nós mesmos poderemos nos defender. Não é à toa que, quando se pergunta "quem nasce em Bacurau é o quê?", o menino responde sem pestanejar: "É gente". A união e determinação da nossa gente é que será a força para resistir às intenções de morte e terror que ora nos rodeiam. Nem mais, nem menos.



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