Apatia à flamenguista

Foi difícil dormir. O jogo vibrante fez a adrenalina pulsar. Ao final, tive até que tomar três cervejas, com o intuito de me embriagar e alcançar o torpor mais cedo. Não adiantou. Findo o jogo, teve confusão e, depois, a coletiva de Luxemburgo. Fiquei desperto até 01h30 ao menos, repetindo o mantra que tenho para tentar me fazer dormir: a escalação do time vascaíno. Quem sofre com o mal do século, a ansiedade, sabe como listas de coisas que temos algum apreço podem tranquilizar a mente. Confesso que esse não foi o único motivo da insônia. A raiva também tomou papel preponderante nessa equação. A cólera que me acometia tinha um alvo em específico, o juiz. Afinal, foi ele o principal ator a agir e garantir o empate nessa partida. Inverteu o que pode, atribuiu amarelos a todos os vascaínos possíveis e ignorou as agressões de Marí e Gabriel Barbosa, ambas passíveis de expulsão. Para completar o indigesto caldo, ainda inventou uma falta que culminou no gol de empate flamenguista, no primeiro tempo. Bem, voltando ao primeiro parágrafo, após muitas escalações, dormi. Acordei e a raiva (do segundo parágrafo) não havia desaparecido. Passeei com os cachorros, brinquei com meu filho (que cisma em sorrir sempre que me vê), nada me tirava essa fúria corrosiva. Indaguei amigos vascaínos, todos unânimes ao ver a injustiça expressa no jogo. Logo, cheguei à conclusão de que não estou louco (ufa!). Revi os vídeos e era impossível discutir com as imagens. Pensei então em questionar meus amigos flamenguistas mais equilibrados. Eis minha surpresa. Unânimes, discordavam das imagens. Foi chocante. Pessoas que compartilham pensamentos políticos e tem uma posição que admiro. Todas, absolutamente todas, se negaram a admitir aquilo que estava ali, à mostra. Isso me fez refletir, como essa situação é análoga ao momento brasileiro. As maiorias, quando empoderadas (seja pela mídia, pelo juiz, o que for) se nega a perceber a situação de privilégio e ainda fazem pouco daqueles que sofrem. Ao invés de defendermos a idoneidade seja de um juiz, seja de leis, seja de um processo, ao nos vermos como beneficiados, fazemos manobras desonestas para justificar o injustificável. Aliás, ontem o clássico foi recheado de ações que deixariam um bolsonarista orgulhoso: desapreço pelas regras, diminuição das instituições, violência e até fake news (inventaram uma suposta música da torcida vascaína que falaria mal dos meninos assassinados no ninho). Enfim... mas o que mais me impressiona foram meus amigos, que politicamente são próximos e se tornaram apáticos às injustiças. Será que todos somos assim quando fazemos parte do discurso hegemônico? Gosto de acreditar que não... Afinal, a resposta histórica está aí. Brigamos por algo maior que o futebol, algo que um jogador efêmero não conseguiria entender. Ele, aliás que fora beneficiado por essa resposta vascaína. Pode contar com nossa luta sempre Bruno Henrique... dentro e fora de campo. Não somos apenas um clube. Somos a história.

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